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Um relato sobre Cubatão em 1810
Alessandro Atanes
Diário de expedição traz relato de comerciante inglês em busca de madeiras logo após a abertura dos portos
Até o final do século XVIII, os relatos de viagens pelo Brasil costumavam se limitar ao litoral. Salvador, Rio de Janeiro e Santos foram, durante grande parte do período colonial, algumas das poucas cidades sobre as quais habitantes de outros países podiam obter conhecimento a partir do Brasil. O historiador Jean Marcel Carvalho França conta, por exemplo, que só em 1810, dois anos após a abertura dos portos, é que surge um relato de viajante europeu sobre a cidade de São Paulo em que se provou que o autor realmente havia estado na cidade.
É o "Diário de uma viagem da baía de Botafogo à cidade de São Paulo", do inglês William Henry May, comerciante estabelecido no Rio de Janeiro que toma parte em uma expedição organizada pelo cônsul inglês para procurar madeira que pudesse ser útil à indústria naval britânica. Assim, em 31 de março daquele ano, dois navios ingleses, Fanny e Nancy, deixam a baía de Botafogo em direção a Santos, onde chegam em 12 de abril.
Entre a cidade portuária e o destino final, o relato traça algumas descrições da região de Cubatão e da rotina dos tropeiros e dos transportadores de carga. A passagem de May, do cônsul, sir James Gambier, e da comitiva por Cubatão ocorre em 17 de abril. A viagem começa bem cedo, às cinco horas da manhã, quando tomam a barcaça do governador de Santos por cerca de "três léguas" (18 quilômetros) ao longo das quais são avistadas madeiras, o objetivo de todo o empreendimento:
O rio corre suavemente através de pitorescas florestas, onde pudemos identificar muitas madeiras valiosas. A beleza da paisagem escapa a qualquer descrição, pois são incontáveis os aspectos grandiosos e pitorescos. Ficamos, por longo tempo, deleitando nossos olhos com essa encantadora pintura da natureza. Alcançamos, então, Cubatão, onde as mulas nos aguardavam. Uma hora foi consumida carregando os animais com as nossas bagagens. Por volta das dez horas da manhã, iniciamos nossa jornada serra acima, não sem antes fazermos uma tremenda festa.
May continua: diz que a pavimentação da estrada poupa os viajantes do incômodo das torrentes de água; fala da inclinação "bastante íngreme" que requer a subida em ziguezague. A seguir, o viajante descreve os encontros com os tropeiros:
Deparamos, durante o trajeto, com muitas tropas de mulas carregadas com açúcar e com outros produtos da região. É admirável a enorme desenvoltura que demonstram esses animais, avançando pelo caminho sem qualquer desordem ou encontrões, mesmo nas partes mais difíceis. Os homens que as conduziam pertenciam a uma raça de gente muito nobre e vistosa, geralmente com cerca de seis pés de altura e com boa constituição. Eles portavam somente um grande chapéu de palha branco – cujas abas pendiam em direção aos ombros –, uma camisa de algodão branco e umas calças do mesmo material, ambas produzidas no país. Muitos desses homens são claros como os europeus, todavia, a sua maior virtude é a polidez, tanto mais bem-vinda por derivar de uma genuína bondade de caráter.
Após duas horas de caminhada, já há cinco milhas de Cubatão, a comitiva alcança o topo da serra e, após mais quatro léguas, atinge Ponte Alta, região atualmente do Grande ABC, onde repousam para, no dia seguinte, percorrerem outras quatro léguas até São Paulo. Inédito até mesmo em inglês e só publicado no Brasil em 2006, o diário de May oferece uma descrição de Cubatão anterior às mais conhecidas, como as passagens do francês Hércules Florence em 1825, do também britânico William John Burchell em 1827, do pastor norte-americano Daniel Parish Kidder em 1839 e de seu conterrâneo James Cooley Fletcher em 1852.
O livro "Cubatão: Caminhos da História", obra coletiva de César Cunha Ferreira, Francisco Rodrigo Torres e Welington Ribeiro Borges, traz trechos dos relatos desses viajantes. Os autores contam que o volume de cargas era tão intenso que há estimativas de que 20 mil mulas carregadas de mercadorias passavam por ano em Cubatão. O livro (leia aqui) traz ainda uma transcrição de um texto do escritor cubatense Afonso Schmidt, publicado no livro "Bom tempo", em que fala da proximidade entre a casa da família e um rancho de tropas em um ambiente muito parecido com o de histórias de gaúchos dos pampas argentinos e do Rio Grande do Sul: "Entre a casa e o engenho havia um rancho de tropeiros. Enquanto a tropa permanecia na mangueira, cercada de bambus, os tropeiros sentavam-se à roda do fogo, contavam 'causos', bebiam aguardente dali mesmo e ponteavam na viola. Não raro, aquilo acabava em rixa: um costurava outro a ponta de faca".