Riquezas naturais e pessoas que por aqui deixaram sua marca no município foram relembradas na manhã desta sexta-feira (10), durante a celebração dos 490 anos da Fundação do Povoado de Cubatão.
A solenidade ocorreu no Parque Anilinas, em frente à réplica da Capela de São Lázaro, um dos pontos históricos da cidade. Para abrir o evento, a Banda Marcial Infantil, sob regência do maestro Willians Duarte, entoou o Hino Nacional e o Hino de Cubatão.
Em seguida, ao lado do busto do memorialista Ayres Araújo Coutinho (que morou por mais de 80 anos no município), o secretário de Cultura Zeca Rodrigues destacou a importância da data. “A primeira menção a Cubatão há 490 anos mostra que foi estratégica a posição de nossa cidade. A história passa por aqui e isso nos faz imaginar o quanto ela já desenvolveu e o quanto ainda pode desenvolver”.
Por sua vez, o secretário de Turismo Fabrício Lopes destacou a importância de se resgatar as tradições cubatenses. “Muitas vezes são coisas que, no tempo de internet, vão caindo em desuso, mas momentos como este marcam a história que está fincada neste chão”.
Homenagens – dois artistas cubatenses presentearam a cidade: O poeta cubatense Natanael Alencar declamou seu poema Moça Cuipataã, escrito especialmente para a ocasião, que menciona as riquezas naturais e as pessoas que fazem parte da história de Cubatão. Já a artesã Silvia Cupertino, representando a Feira Criativa de Cubatão, esculpiu a Rainha das Serras, uma mulher de rosto negro, envolta de um manto verde. A cor, a textura e os elementos símbolos do município: o “ouro negro” que é refinado na indústria, os dutos de água da Emae, as cachoeiras, a própria Serra do Mar, a Mata Atlântica, a flor e a bananeira.
Durante o evento, a Prefeitura lançou o selo comemorativo aos 490 anos da fundação do povoado. “A gente foca no 9 de Abril, aniversário de emancipação politico-administrativa do município, mas não podemos nos esquecer que antes dos 74 anos que Cubatão completa este ano, há mais de 400 de história. Por isso, em memória de todos os cubatenses, relembramos esse marco”, declarou o prefeito Ademário Oliveira.
O encontro teve ainda participação dos músicos Karin Kamila e Felipe Lira, do projeto Cubatão Sinfonia tocaram Prelúdio de Guerra-Peixe e Memory (do musical Cats). Encerrando a solenidade, Karin cantou Garota de Ipanema, ao som de violão.
Fundação do povoado – A data faz alusão ao começo do processo de povoamento de Cubatão, iniciado por Martim Afonso de Souza em 10 de fevereiro de 1533, quando doou parte das terras que estavam sob sua responsabilidade para Rui Pinto. Na carta contendo o registro da doação, a cidade já era chamada de Cubatão.
MOÇA CUIPAITAÃ
Moça do século XVI, diz pra todos que é de 1949.
O Tempo segue, vagaroso, desde quando te viu, Cuipaitaã, estavas de cócoras, a brincar, entre peixinhos velozes no fluir das águas, tecias o lirismo das lendas, o pito sempre aceso nos lábios, cheirando a mexericas.
Deixa eu ler-te o corpo…
No teu pescoço, de artérias verdes, brilham em cor intensa ipês amarelos e roxos.
Acima do teu tórax, se lê antigo desejo, o eterno desejo de mais gente e colheitas fartas.
Perto de teu coração, vibra ainda o toque-toque dos tamancos nos largos imemoriais, onde esforçados caminhantes bem descansaram, bem se deleitaram, com cachaça, charque e bananas da terra.
Nas tuas costelas, se leem vontades de mais espírito, de mais educação, saúde, paz, e solidariedade.
Ao norte do teu umbigo, borbulham as memórias dos escravos negros e indígenas que te deram o sangue; ao leste, os manuéis, a trabalharem a terra; ao oeste, os gestuais de proteção e benção das tuas matriarcas europeias, e, dentre elas, Miquelina, mãe generosa, a acender as luzes na aurora do velho Anilinas.
Ouço, ao sul, em teu baixo ventre, sons de pelejas e suados pingos dos povos dos sertões, e de todas as regiões, plantando, criando, torcendo o aço e conduzindo o petróleo, unidos aos descendentes de além-mar.
Vejo-os nos lares, nos campos, nos parques, nas ruas do centro e periferias, a se amalgamarem em biodiversidade amorosa.
Enxergo em teu sexo, Cuipaitaã, o perfume da terra, em bananas, maçãs, jacas, pitangas, cucas, frutas-do-conde, e hibiscos, doces silvestres de crianças sempre sábias, hibiscos de doces memórias.
E foi assim, em corajosa alegria, que mulheres, homens, e vasta prole, temperaram o solo com canções de afeto e esperança.
Nas varizes dilatadas de teus troncos, nas raízes à beira do mangue, percebo Afonso, com seu cãozinho Mosquito, a correr, assoviando a primeira composição do maestro Flanela, onde se harmonizam o canto dos insetos, o coaxar dos sapos, o rugir dos ventos, harpas naturais, galhos, caules, folhas, bem-te-vis, sabiás e outras aves.
Nos caminhos, atraídos pelos sons e pela lua, poetas em êxtase tropeçam nos pés de curupiras distraídos.
E me surge aos olhos teu corpo, em totalidade, a girar na ciranda da história, em cadências livres, enquanto curumins barrigudos, guardiães da terra, esculpem, nos barros da esperança, o sonho do futuro.
Fotos: Secom
















